Revista Eletrônica do Programa de Bolsas - Edição 1

Revista: Edição 1 | Ano: 2023 | Corpo Editorial: Editorial | Todas edições: Todas
ISSN: 2966-4020
Avaliação de inibidores de vias de sinalização como tratamentos para a fibrose cardíaca na doença de Chagas
Bolsista: ITALO DE LUCAS DA SILVA XAVIER
Orientador(a): CLAUDIA MAGALHAES CALVET ALVAREZ
Coorientador(a): Não informado
Resumo: Justificativa e Relevância. A fibrose intersticial é um fator determinante para as manifestações patogênicas da doença de Chagas. Ensaios clínicos mostraram forte correlação entre o percentual de fibrose tecidual e o baixo índice de fração de ejeção ventricular de pacientes com doença de Chagas 1. A única droga disponível para o tratamento da doença, o Benzonidazol, reduz a carga parasitária durante a fase crônica com eficácia variável, mas quando administrado a pacientes com cardiomiopatia avançada, não resultou em melhora do desfecho clínico2. Assim, o desenvolvimento de terapias visando o tratamento da fibrose são necessários para serem administrados em combinação com agentes tripanocidas, possibilitando uma melhora clínica significativa para cardiomiopatia avançada. Dados de fosfoproteômica do nosso grupo sugeriram a ativação das vias de sinalização DYRK2, AMPK2, NDRG2, JNK e p38 durante a infecção crônica experimental3 . Assim, nos propomos a validar esses alvos e avaliar se inibidores dessas vias podem prevenir o aumento de colágeno em modelos in vitro de fibrose cardíaca durante interação com T. cruzi. Objetivos. Investigar a fosforilação de DYRK2, AMPK2 e NDRG2 durante a interação fibroblastos cardíacos – T. cruzi; quantificar a expressão de colágeno por FC tratados com inibidores destas vias de sinalização; avaliar o papel de inibidores de DYRK2, AMPK2, NDRG2, JNK e p38 na proliferação de FC após contato com o patógeno. Metodologia. Células e parasitas- Fibroblastos cardíacos (FC) serão purificados a partir de passagens sucessivas de culturas de cardiomiócitos, como descrito anteriormente4. Serão utilizadas para as análises formas tripomastigotas de T. cruzi, cepa Brazil, derivadas de cultivo celular; Western blot –Proteínas totais de extratos de FC infectados por 48h pelo T. cruzi, ou FC estimulados com meio condicionado por parasitas ou soro de camundongos infectados serão separados por SDS-PAGE, transferidos para membrana de nitrocelulose e DYRK2, AMPK2, NDRG2, JNK e p38 fosforiladas serão detectadas com anticorpos específicos; Quantificação de colágeno- – Culturas de FC nas mesmas condições acima serão tratadas com inibidores de DYRK2, AMPK2, JNK e p38, e RNAi para NDRG2. As culturas serão fixadas e coradas com corante Sirius Red/Fast Green por 2h, o que permite a medida semiquantitativa do conteúdo de colágeno e proteínas não colágenas em cultura5. Após lavagem, o corante é extraído das células com solução de NaOH 0,1 N /Metanol 1:1. As absorbâncias dos sobrenadantes resultantes são lidas no leitor de microplacas Spectramax M2 (Molecular Devices) a ? 540 e 605 nm5; Ensaios de proliferação celular- FC serão cultivados submetidos a estimulação de colágeno (via infecção direta, ou exposição a antígenos do parasita)e tratados com inibidores da via de sinalização. A proliferação será avaliada a partir da medida de incorporação 5-bromo-2’-deoxiuridina (BrDU). Após fixação, as células serão incubadas com anticorpo anti-BrDU conjugado a peroxidase. Em seguida, o complexo antígeno-anticorpo será detectado pela adição do substrato tetrametilbenzidina (TMB) e a DO será obtida por leitura em ?450 nm em leitor de microplacas Spectramax M2 (Molecular Devices). Referências Bibliográficas. 1. Tassi EM et al Arq Bras Cardiol 102, 456 (2014). 2. Morillo C et al. N Engl J Med 373, 1295 (2015). 3. Wozniak JM et al. PLOS NEGL TROP DIS 14, e0007980 (2020). 4. Silva TA et al Int J Mol Sci 20, (2019). 5. Houghton PE et al Wound Repair and Regeneration 4, 489–495 (1996).
CARACTERIZAÇÃO DE GENES DIFERENCIALMENTE EXPRESSOS EM LINHAGENS CELULARES DE CÂNCER DE MAMA MURINO
Bolsista: CAROLINE DE SOUZA RODRIGUES
Orientador(a): ROMULO GONCALVES AGOSTINHO GALVANI
Coorientador(a): ADRIANA CESAR BONOMO
Resumo: O câncer é uma doença heterogênea e de ocorrência multifatorial. Entre as mulheres, o tipo mais frequente é o de mama. Embora o tumor primário seja importante para o curso da doença, o responsável pelo óbito da paciente é a metástase, tornando clara a urgência do entendimento dos fatores responsáveis pela sua indução. A linhagem celular de tumor de mama murino 4T1, ortotopicamente introduzida em camundongos BALB/cJ, é altamente tumorigênica e invasiva, sendo capaz de metastatizar para os mesmos órgãos afetados pelo câncer de mama humano, incluindo ossos, pulmão, linfonodos drenantes da mama, fígado e cérebro, servindo de modelo da forma mais grave da doença. Em consequência da heterogeneidade desse carcinoma, várias linhagens parentais de 4T1 foram isoladas e possuem fenótipos metastáticos divergentes, dentre elas a 67NR, que não tem capacidade invasiva, portanto não é letal, servindo de modelo para carcinoma in situ. A análise ex vivo de linfócitos T CD4 isolados da medula óssea de camundongos inoculados com células 4T1 ou 67NR demonstrou que no grupo que recebeu células 4T1, as células T são capazes de induzir doença osteolítica precoce essencial para o estabelecimento da metástase óssea, em contrapartida o grupo que recebeu o carcinoma in situ 67NR, não apresentou a perda óssea. A atividade pró-metastática destas células T foi positivamente correlacionada com a produção de citocinas pró-osteoclastogênicas, incluindo a molécula RANKL, regulador principal dos processos de osteoclastogênese e remodelamento ósseo. Estes dados sugerem que o tumor pode exercer papel sobre a diferenciação e ativação de células T influenciando na patologia da doença. Sendo assim, o objetivo desse trabalho é analisar as características moleculares de 67NR e 4T1 para compreensão dos fatores celulares intrínsecos que sejam importantes para o estabelecimento metastático. A modulação pode ocorrer devido a moléculas que são expressas pelo tumor e agem diretamente sobre os linfócitos T, ou mesmo sobre outras células importantes na ativação dos primeiros. Para tal, utilizaremos dados depositados referentes a expressão gênica das linhagens celulares 67NR e 4T1 e buscaremos genes diferencialmente expressos (DEG) entre elas e então faremos uma busca por vias de sinalização possivelmente enriquecidas (GSEA) que estejam relacionadas com processos inflamatórios e a resposta imunológica. Para validar os achados in vitro será realizada a avaliação da expressão dos genes encontrados através de PCR em tempo real semi-quantitativo (TaqMan™). Outra possibilidade poderia ser o processamento de peptídeos a partir das proteínas de uma linhagem celular gerar respostas quantitativamente ou mesmo qualitativamente diferentes das respostas geradas para peptídeos da outra linhagem. Para avaliar esta possibilidade avaliaremos o peptidoma e ligandoma das linhagens celulares no contexto do haplótipo de MHC singeneico a ela (H2d) referente as respostas T CD4 (NetMHCIIPan) e da resposta T CD8 (NetMHCPan). Os peptídeos específicos de cada linhagem serão avaliados quanto a sua imunogenicidade através de dados depositados previamente através do Immune Epitope Database and Analysis Resource (IEDB). A identificação de tais fatores potencialmente associados ao estabelecimento metastático possibilita a compreensão da patologia da doença bem como a possibilidade de posterior validação in vivo e a geração de alternativas terapêuticas para o tratamento da metástase, atualmente inexistente
Avaliação de antígenos de Schistosoma mansoni como alvos em novos testes de diagnóstico sorológico da esquistossomose
Bolsista: Larissa Meira Resende
Orientador(a): ROSIANE APARECIDA DA SILVA PEREIRA
Coorientador(a): Cristina Toscano Fonseca
Resumo: Apesar dos avanços alcançados pelas ações de controle da esquistossomose, a doença ainda permanece como um grave problema de saúde pública mundial. Novas intervenções são uma prioridade para a eliminação e controle da esquistossomose, uma vez que as medidas atuais adotadas têm sido essencialmente baseadas na quimioterapia. Um dos obstáculos para alcançar a eliminação da doença é a sensibilidade do método de diagnóstico utilizado. Atualmente, o diagnóstico parasitológico pela técnica de Kato-Katz é o recomendado pela OMS. Entretanto, este método apresenta uma baixa sensibilidade na detecção da infecção pelo S. mansoni, principalmente em áreas de baixa endemicidade e baixa intensidade de infecção. Portanto, é urgente a necessidade de melhorias no diagnóstico da doença, sendo necessário o desenvolvimento de ferramentas alternativas, como novos testes sorológicos que sejam mais sensíveis e capazes de detectar precisamente as infecções ativas, bem como a prospecção de antígenos do parasito para serem empregados nesses testes. Em um estudo de imunoproteoma realizado pelo nosso grupo foram identificadas algumas proteínas com potencial para serem utilizadas como alvos para o diagnóstico sorológico da esquistossomose. Estas proteínas foram reconhecidas exclusivamente por anticorpos presentes no soro de indivíduos infectados, residentes em área endêmica para esquistossomose. Uma destas proteínas, que neste trabalho é chamada de PPE de S. mansoni, tem apresentado resultados promissores na forma de proteína recombinante. Para melhorar ainda mais a acurácia dos testes utilizando a proteína PPE recombinante, o objetivo deste projeto é realizar uma prospecção de peptídeos antigênicos da PPE que possam ser utilizados como alvos em novos testes de diagnóstico sorológico da esquistossomose. A estratégia experimental foi definida em dois eixos. O primeiro baseado na prospecção in sílico de peptídeos por meio do uso de diferentes preditores de epítopos de células B e o segundo, na utilização de peptídeos de 15 aminoácidos, que cobrem toda a sequência da proteína PPE, imobilizados em lâminas de vidro na forma de microarranjos de peptídeos. Os peptídeos selecionados in sílico serão sintetizados e utilizados em ensaios de ELISA para avaliar a reatividade de anticorpos presentes em amostras de soro de indivíduos infectados e não infectados pelo S. mansoni frente a estes antígenos. Os microarranjos de peptídeos também serão utilizados em imunoensaios para detecção dos peptídeos imunorreativos da proteína PPE. A realização deste projeto poderá resultar na identificação de peptídeos da proteína PPE com potencial para serem empregados em diferentes plataformas de diagnóstico sorológico da esquistossomose.
AVALIAÇÃO DO POTENCIAL BIOTECNOLÓGICO DE CEPAS DE Aspergillus niger PRESERVADAS EM COLEÇÃO BIOLÓGICA
Bolsista: Natã Caltenequel Cerca
Orientador(a): SIMONE QUINELATO BEZERRA
Coorientador(a): AUREA MARIA LAGE DE MORAES
Resumo: As atividades exercidas nas coleções microbiológicas promovem grande impacto na sociedade, economia e saúde pública, assim, a qualidade dos componentes do acervo deve ser assegurada. Pois, representam a biodiversidade genética de fungos de importância médica e ambiental, a memória epidemiológica e o registro de variações ocorridas em agentes etiológicos ao longo do tempo, contemplando populações genéticas de organismos relacionados a pesquisas em saúde pública, além da potencialidade na produção de novos insumos de interesse biotecnológico. Estas coleções, além de atuarem como testemunho da diversidade biológica de ecossistemas muitas vezes já completamente degradados, prestam diversos serviços, atuando no desenvolvimento de pesquisa científicas, tecnologia, inovação e vigilância epidemiológica, bem como no desenvolvimento e produção de bioprodutos para diagnóstico, vacinas e medicamentos. A extensa diversidade genética e a plasticidade fenotípica dos microrganismos presentes na natureza, fazem com que as fontes de estudo em busca da seleção e do melhoramento de cepas produtoras de compostos bioativos seja inesgotável. São essenciais o conhecimento e o posterior aproveitamento desses microrganismos, isolados de diversos ecossistemas naturais, visto que, um conjunto de aplicações antes desconhecidas podem ser descobertas analisando-se suas vias metabólicas e, consequentemente, seus metabólitos. A biotecnologia de compostos de origem fúngica tem sido utilizada nas indústrias há décadas, todavia, há uma demanda cada vez maior para a seleção de novos isolados fúngicos. Estes microrganismos têm sido extensivamente requeridos como produtores de diferentes substâncias de interesse econômico, como enzimas, ácidos orgânicos, antibióticos, vitaminas, aminoácidos e esteroides. Espécies de Aspergillus secretam uma grande quantidade de enzimas hidrolíticas, além de diversos metabólitos como ácidos orgânicos, tornando estas espécies atrativas ao desenvolvimento de bioprocessos . Aspergillus niger é uma das espécies mais utilizadas na biotecnologia industrial em cultivos submersos e estado sólido devido a sua eficiente produção de enzimas degradadoras de polissacarídeos, com destaque para a produção de ácido cítrico, importante produto comercial, com uma produção global acima de um milhão de toneladas/ano. A indústria de alimentos é a maior consumidora deste bioproduto, geralmente aplicado para acidificar alimentos, servindo como conservante e prolongando sua vida útil. O ácido cítrico também pode ser encontrado na composição de produtos farmacêuticos, de limpeza, cosméticos, higiene pessoal e, até mesmo, empregado na limpeza de metais pesados, por causa de sua propriedade quelante. Por esta razão, é de extrema relevância a autenticação taxonômica de espécies preservadas em coleção biológica, assim como o desenvolvimento de estudos que gerem informações associadas relativas ao seu potencial biotecnológico, assegurando a qualidade do material biológico preservado e cedido. Assim, o presente estudo apresenta como objetivos a autenticação taxonômica por abordagem polifásica e avaliação da produção de ácido cítrico de 20 cepas de Aspergillus niger que compõem o acervo da Coleção de culturas de fungos filamentosos da Fundação Oswaldo Cruz. Para isso, as cepas serão reativadas através de três repiques contínuos consecutivos, realizados em triplicate e em meios de cultura específicos. Sendo incubadas em câmara climatizada à 25 °C ± 1°C por 7-21 dias para análise de viabilidade, estabilidade e pureza. Posteriormente, as cepas passarão pela etapa de autenticação por abordagem polifásica, através de técnicas de identificação morfológicas e moleculares. Ao final, estas cepas serão preservadas por liofilização e criopreservação. Em paralelo, será analisado o potencial de produção de ácido cítrico pelo processo de fermentação submersa, seguindo o método de Saffran; Denstedt (1948), através de espectofotometria. Os resultados obtidos neste estudo irão contribuir para a ampliação de dados sobre a diversidade das cepas estudadas, bem como a sua potencial utilização em processos biotecnológicos, garantindo o fornecimento de recursos biológicos e informações associadas, com qualidade assegurada para pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico.
AVALIAÇÃO FARMACOLÓGICA DE NANOEMULSÃO DO DECOQUINATO PARA TRATAMENTO E PROFILÁXIA NA MALÁRIA
Bolsista: MARINA LUIZA ROCHA SILVA
Orientador(a): Diogo Rodrigo de Magalhães Moreira
Coorientador(a): HELENITA COSTA QUADROS
Resumo: - Objetivo Geral: Investigar as propriedades farmacológicas de nanocarreadores do tipo nanoemulsão (NE) contendo o fármaco antiparasitário decoquinato (DECO) para o tratamento da malária experimental. - Objetivos Específicos: 1) Estudar a atividade antiparasitária, o espectro de ação e a seletividade frente formas assexuada do P. falciparum de nanoemulsão contendo o fármaco antiparasitário decoquinato; 2) Estudar a atividade antiparasitária frente ao P. falciparum de nanoemulsão contendo o fármaco antiparasitário decoquinato em combinação com a co-incubação com antimaláricos (quinolinas/artemisininas); 3) Avaliar a eficácia da nanoemulsão contendo o fármaco antiparasitário decoquinato na inibição da biossíntese da hemozoína e no curso da inibição das enzimas envolvidas na cadeia transportadora de elétrons mitocondrial.
A Amazônia na imprensa: ciências, devastação ambiental e o movimento ecologista global (1972-1992)
Bolsista: ELISA TRAVASSOS DE SAO TIAGO
Orientador(a): André Felipe Candido da Silva
Coorientador(a): Não informado
Resumo: II – Apresentação Atualmente a floresta amazônica tem passado por um nível de devastação similar ao ocorrido nos anos 1970 e 1980. O desmatamento tem se acelerado em consequência da exploração de madeira, do garimpo e do avanço da fronteira agropecuária, que consiste principalmente na expansão de terra para cultivo de soja e criação de gado. Cientistas, ativistas e organizações da sociedade civil vêm chamando atenção para as consequências dramáticas desse processo para as comunidades locais, principalmente para os coletivos indígenas, que têm sofrido pressão por garimpeiros, grileiros e madeireiros, como também para os efeitos ecológicos. Pesquisadores especializados no estudo da região têm alertado sobre a importância vital da cobertura vegetal da Amazônia na regulação climática do território sul-americano e do planeta como um todo. Alguns deles advertem que o ecossistema se aproxima dos “pontos críticos” a partir dos quais entrará em marcha um processo irreversível de savanização (Lovejoy; Nobre, 2019). Os efeitos para as demais regiões do Brasil serão dramáticos. Alguns deles, como crises hídricas já tem se insinuado em consequência das alterações do regime hidrológico e meteorológico na Amazônia. Projeto de pesquisa de escopo internacional, intitulado “A Amazônia como microcosmo do Antropoceno: a história das pesquisas transnacionais em ecologia amazônica e os impactos ambientais da Grande Aceleração (1952-2002)” e coordenado por André Felipe Cândido da Silva, foi recentemente aprovado em edital do Programa de Excelência em Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz realizado junto ao CNPq no edital N.08/2021. O projeto visa compreender as redes transnacionais de pesquisa científica dedicadas a compreender a ecologia da Amazônia brasileira, com a finalidade de analisar como a região passou de paisagem regional, vista como vazio demográfico e plena de recursos naturais que deveriam ser explorados, a um bioma de relevância global, com funções importantes nos processos que constituem o sistema terrestre. Com recorte temporal delimitado entre os anos de 1952 e 2002, a proposta também tenciona investigar os circuitos por meio dos quais a crítica à devastação ambiental da floresta amazônica ganhou amplitude global no contexto de organização do movimento ambientalista, insuflado principalmente a partir de 1972, com a Conferência de Estocolmo (McCormick, 1992). Nos últimos 60 anos, houve uma escalada sem precedentes na expansão e intensificação das atividades humanas na bacia amazônica, fomentada principalmente pelos projetos de desenvolvimento sedimentados em modelos autoritários e centralizados. A ditadura civil-militar implantada no Brasil em 1964 impulsionou a ocupação do território amazônico por meio de projetos de colonização assentados na agropecuária e pela construção de obras de infraestrutura como rodovias e hidrelétricas, além de incentivar ações de exploração de minérios, com participação de companhias multinacionais (Batista, 2016). As consequências socioambientais dessas intervenções massivas no metabolismo ecológico do bioma foram dramáticas (Pádua, 2015). Essa intensificação da devastação ambiental na Amazônia pelas ações humanas acompanhou a expansão de atividades socioeconômicas em todo o globo no mesmo período. As transformações nos processos físicos e biogeoquímicos do sistema terrestre propiciaram a entrada do planeta terra em um novo regime geológico, que tem sido chamado de Antropoceno ou Grande Aceleração (McNeill & Engelke, 2014; Steffen et. al., 2015). O Brasil e demais países do Sul Global “passaram a adaptar suas ordens sociais, políticas, culturais e ambientais às demandas do capitalismo global" (Mougey 2018), demandas muito ampliadas em função do crescimento socioeconômico alavancado principalmente pelo aumento da atividade industrial, agropecuário e pelo setor terciário, como também pelo crescimento populacional. O aumento da devastação ambiental provocado por projetos de infraestrutura e por atividades econômicas na Amazônia gerou, a partir dos anos 1970, reação inflamada de ambientalistas, cientistas, intelectuais, políticos, ONGs e instituições. A floresta amazônica tornou-se sinônimo de floresta tropical e avatar do futuro da humanidade no planeta, em um processo de globalização política que fez dela um ícone do movimento ambientalista contemporâneo recém-constituído (Hecht e Cockburn, 1990; Slater, 2002; Pádua, 2005, 2015; Acker, 2014, 2017; Niebauer, 2019, 2021). A imprensa internacional foi uma das principais caixas de ressonância das críticas à devastação da Amazônia incentivada pelas políticas públicas do governo militar, como também à atuação dos governos estabelecidos com o fim da ditadura. A mídia impressa nacional também vocalizou as reações ao avanço sobre a bacia amazônica por projetos de colonização, hidrelétricas, rodovias e mineradoras, mas tais reações oscilaram segundo os alinhamentos políticos e ideológicos de cada veículo. Cabe investigar essas distintas reações, articulando-as com os diferentes contextos políticos e econômicos que atravessaram o período, como também as mudanças nas temáticas privilegiadas nas matérias sobre a Amazônia entre os anos e 1972 e 1992. A finalidade deste projeto é fazer um mapeamento dos principais motes discursivos veiculados pela imprensa brasileira sobre a Amazônia neste recorte temporal em pesquisa nos jornais que compõem a Hemeroteca Digital da Biblioteca Digital e no acervo histórico do jornal O Globo, disponível online. Com isso pretende-se compreender como os enunciados científicos sobre os mecanismos de funcionamento do ecossistema amazônico ganharam a esfera pública, os dispositivos de tradução envolvidos na comunicação desse conhecimento ao público leigo e a forma como tais enunciados contribuíram para edificar o imaginário sobre a Amazônia. Além disso, tem-se por fim analisar como a imprensa brasileira noticiou as críticas e discursos dos movimentos ambientalistas acerca da destruição da floresta amazônica. III – Justificativa e Relevância A temática da devastação ambiental da Amazônia representa tema de enorme atualidade, visto o crescimento do desmatamento para dar lugar a pastos e campos de soja, sem contar a contaminação de rios e a invasão de terras indígenas pelo garimpo. As ciências têm desempenhado papel relevante na evidenciação dos efeitos dessa destruição nas funções que o ecossistema desempenha em escala local, nacional, continental e global. Tais funções consistem principalmente no papel da biomassa vegetal como “pia de carbono”, como reservatório da biodiversidade terrestre e como engrenagem fundamental na regulação climática e hidrológica. As críticas e denúncias à manutenção desse padrão de devastação enfatizam como a reversão da destruição pela preservação da floresta, pela defesa da demarcação das terras indígenas e pelo estabelecimento de padrões sustentáveis de relação com os recursos naturais representa passo fundamental para a manutenção da espécie humana no planeta. As críticas e denúncias tem ganhado amplitude internacional e contribuído para a pressão que o Brasil tem sofrido por parte de governos estrangeiros e grupos com poder econômico, que tem acenado para o boicote de produtos advindos da destruição da floresta. Diante disso, a temática da história recente da Amazônia reveste-se de relevância social, cultural e política, já que permite esclarecer continuidades e descontinuidades no processo de interação com a floresta por parte da sociedade e do Estado brasileiro nos últimos 70 anos. Possibilita compreender os principais processos implicados na devastação ecológica, as políticas públicas estabelecidas que os influenciou ou procurou revertê-los, além de evidenciar os imaginários em torno da região que insuflaram o padrão predatório que temos mantido com ela. Ademais, preocupa-se em sublinhar o papel que as ciências desempenharam na compreensão das dinâmicas ecológicas da Amazônia e na evidenciação das consequências das intervenções nessas dinâmicas por projetos de modernização e de exploração dos recursos. Elas têm sido fundamentais no acompanhamento da devastação da floresta, na elucidação do papel que ela tem no metabolismo climático e hidrológico e na elaboração de estratégias de desenvolvimento econômico que impliquem em relações sustentáveis com o ecossistema, como vem sendo defendido pela bioeconomia. Por outro lado, as ciências e as tecnociências contribuíram para a viabilização da exploração massiva de recursos. Mapeamentos de regiões ricas em minérios, idealização de projetos de infraestrutura e formulação de insumos que viabilizem a prática da agropecuária na região são apenas alguns exemplos que demonstram o papel ambivalente que as ciências e a tecnologia têm exercido nesse processo. A articulação da história ambiental com a história das ciências representa uma inovação metodológica para lidar com a Amazônia em perspectiva histórica. Ela possibilita compreender como os processos de devastação ecológica ocorreram em sincronia com a elucidação dos mecanismos de funcionamento do ecossistema e com a expressão cada vez mais intensa de críticas aos padrões de desenvolvimento direcionados à região. Nesse sentido, este projeto dialoga estreitamente com a farta bibliografia que trata da história da Amazônia, sobretudo daquela que aborda os planos de ocupação e desenvolvimento da região no decorrer do século XX e os efeitos socioambientais desses programas (Araújo, 1992; Weinstein, 1993; Gondim, 1994; Andrade, 2012; Slater, 2002; Pádua, 2005, 2015; Garfield, 2014; Acker, 2017; Batista, 2016, Mougey, 2018). Essa historiografia traz subsídios importantes para a compreensão das motivações políticas e ideológicas que modelaram os projetos endereçados à Amazônia; os grupos de interesse que participaram desse processo, os conflitos, negociações e acomodações entre elites locais, agências federais e companhias privadas nacionais e internacionais. Muito embora mencione instituições de pesquisa, projetos científicos e tecnologias envolvidos nos processos de avanço sobre o território amazônico, essa historiografia não percorre de forma aprofundada o lugar dos saberes científicos nas percepções da bacia amazônica, nem na concepção e execução dos programas de desenvolvimento. A historiografia sobre as denúncias da devastação da floresta e do drama socioambiental vivido pela Amazônia em consequência dos projetos de infraestrutura promovidos pela ditadura civil-militar representa outra frente de diálogo importante para o desenvolvimento desta pesquisa (Hecht & Cockburn, 1990; Slater, 2002; Pádua, 2005, 2015; Acker, 2017, Niebauer, 2019, 2021). Seus estudiosos exploram os circuitos intelectuais, institucionais e as alianças que transformaram a destruição da Amazônia em tópico de interesse e atuação do movimento ambientalista internacional, de maneira que “floresta tropical tornou-se sinônimo de Amazônia na década de 1970", conforme afirma Slater (2002, p. 134). Segundo esse movimento, o desmatamento da Amazônia seria uma ameaça não só à região, mas ao planeta como um todo. No entanto, essa historiografia não aprofunda o papel do conhecimento científico provindo das pesquisas sobre a Amazônia na formulação de imagens, discursos e argumentos mobilizados pelos diversos segmentos alinhados em defesa da preservação da floresta. Os autores que têm refletido sobre a Grande Aceleração/ Antropoceno do ponto de vista da história e das humanidades enfatizam os processos de utilização de recursos, os padrões de consumo e as intervenções socioambientais que acarretaram as modificações do Sistema Terra (Mcneill & Engelke, 2014). Tem havido um esforço de correlacionar essas tendências globais com os processos históricos ocorridos no Brasil, no sentido de definir como o país se integrou às cadeias globais da Grande Aceleração, inclusive com esforços de pensar a Amazônia nesse contexto (Pádua, 2017; Acker & Fischer, 2018; Fischer, 2018; Mougey, 2018; Oliveira, 2018; Silva, 2018). No entanto, a complexidade do papel das ciências e da tecnologia em tais processos não é examinada, nem como instância que viabiliza os padrões de utilização de elementos da biosfera pelas sociedades humanas, nem na evidenciação dos efeitos desses padrões nas dinâmicas planetárias. Apesar de alguns trabalhos que abordam como o processo de devastação ambiental tem sido reportado pela imprensa, eles não analisam como os discursos veiculados em jornais e revistas da mídia impressa transmitiram os enunciados e categorias elaboradas pela pesquisa científica. Além disso, não registram o impacto dos projetos de cooperação internacional dedicados a elucidar os variados aspectos da ecologia amazônica. A combinação da historiografia ambiental com a historiografia das ciências e da Amazônia no enfrentamento de questões analisadas a partir do conceito do Antropoceno traz o potencial de lançar nova luz sobre as conexões que colocaram a região amazônica no foco desta nova época geológica conformada pela ação humana no planeta. A investigação do histórico dessas conexões contribui para um debate mais qualificado sobre os desafios contemporâneos da Amazônia, atualmente absorvida em níveis de devastação similares aos observados no auge do cataclismo ecológico provocado durante a ditadura militar. A retórica e os projetos idealizados para a região ficam em geral presos a padrões anacrônicos de desenvolvimento como crescimento econômico e exploração de “recursos”. Assim como alguns programas de conservação, esses padrões são circunscritos pela dualidade sociedade/ natureza, sem conseguirem elaborar propostas efetivamente integradas para o complexo mosaico socioambiental que é a Amazônia. A pesquisa histórica possibilita imaginar novos futuros a partir da análise do passado, inclusive recuperando o histórico de abordagens, perspectivas, projetos e alianças que avançaram de forma bem-sucedida no equacionamento desses desafios. IV – Objetivos - Investigar como a mídia impressa no Brasil repercutiu o processo de devastação ambiental na Amazônia entre os anos de 1972 e 1992, tendo em mira verificar como retratou as políticas públicas que alavancaram esse processo, como caracterizou os atores locais e as representações sobre a região que contribuiu para divulgar e sedimentar; - Compreender as transformações nos sentidos evocados pela região Amazônica a partir dos registros da imprensa em um período marcado por grandes mudanças nos discursos ecológicos no âmbito dos quais a floresta tropical assumiu posição de relevo; - Acompanhar como a imprensa registrou as iniciativas de cooperação científica internacional dedicadas à ecologia da Amazônia e qual seu papel na divulgação, na esfera pública, de conceitos especializados e terminologias oriundos das pesquisas e da atuação de cientistas, intelectuais e ativistas; - Verificar o modo como a imprensa reportou as mudanças climáticas e o processo de perda da biodiversidade nas notícias sobre a Amazônia, principalmente no sentido de enfatizar o papel da região no metabolismo meteorológico, hidrológico e biológico que abrange o território brasileiro e o planeta como um todo. V – Metodologia A primeira etapa da pesquisa consiste na leitura de textos ligados à temática do projeto mais amplo ao qual a iniciação científica está vinculada, de modo a familiarizar a aluna com a historiografia pertinente ao tema que irá analisar e a delinear o contexto no qual seu estudo está inserido. Os textos combinam temas da história da Amazônia, da história ambiental, da história das ciências, além de análises sobre a história do Brasil no período de estudo. Esta fase inicial também envolve a leitura de textos de caráter teórico e metodológico, como aqueles que tratam da pesquisa em periódicos (De Lucca, 2006) de história oral (Ferreira, Fernandes & Alberti, 2000) e que abordam a história em perspectiva transnacional e global. A familiarização com a literatura especializada sobre o tema e com os debates mais recentes também será feita por meio da participação nos encontros mensais de pesquisa do Grupo de Estudo, “História, Saúde e Ecologia na Grande Aceleração”, coordenado pelo orientador, no qual são debatidas pesquisas realizadas tanto por membros da equipe quanto por convidados, publicadas ou em fase de elaboração. Representa uma ótima oportunidade de socialização com estudantes de pós-graduação e pesquisadores profissionais e de desenvolvimento da formação da aluna, já que possibilita entrar em contato com discussões complexas relativas ao tema específico do projeto mais amplo no qual se insere este subprojeto, mas também com debates gerais do campo da historiografia, da história ambiental e da história das ciências. O levantamento de fontes históricas primárias será feito por meio de pesquisa na base online da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, que reúne coleção expressiva de periódicos, e no Acervo Histórico do Jornal O Globo, igualmente disponibilizado online. Serão utilizados termos de busca mais amplos, como Amazônia e floresta amazônica, mas também expressões mais específicas, relativas aos projetos de cooperação internacional dedicados ao estudo da ecologia amazônica e de personagens que se destacaram nesses estudos ou na vocalização das críticas dos efeitos da devastação ambiental da região. O recorte temporal privilegiado será de 1972 a 1992. Além de O Globo, os demais jornais que serão selecionados para análise mais detidas dos textos serão aqueles que apresentarem maior número de ocorrências. Os textos coletados serão registrados em base de dados com palavras-chave que serão disponibilizados a toda a equipe do projeto “A Amazônia como microcosmo do Antropoceno”. Além disso, uma análise dos principais temas veiculados na imprensa subsidiará o trabalho da aluna, que apresentará seus resultados na Reunião Anual de Iniciação Científica e também em encontros acadêmicos da área de história a partir de fichamento das reportagens e exame do conteúdo, articulado à bibliografia especializada no tema. VI – Atividades Previstas 1 – Leitura de obras de referência nas áreas da história ambiental, da história das ciências, história do Brasil, além de algumas obras da área de teoria e metodologia da história, de maneira a franquear o contato com autores clássicos e recentes que subsidiem o desenvolvimento do projeto. O acompanhamento será feito por meio de reuniões de orientação. 2 – Pesquisa de levantamento, catalogação, leitura, fichamento e interpretação de fontes documentais obtidas por meio de pesquisa na imprensa da época de estudo, disponibilizada na página online da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, utilizando palavras-chave relacionadas à temática de interesse. 3 – Acompanhamento de atividades institucionais, com participações nas reuniões internas do grupo de pesquisa registrado no CNPq, “História, Saúde e Ecologia na Grande Aceleração”, coordenado pelo orientador e que conta com a participação de estudantes de mestrado, doutorado, além de pesquisadores e professores de outras instituições no Brasil e no exterior. A aluna também será incentivada a participar de eventos promovidos pela Casa de Oswaldo Cruz (COC) como cursos livres, tal como o curso “História, Saúde e Ambiente no Conhecimento”, promovido anualmente pelo grupo e do evento quinzenal oferecido pelo Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS-COC/ Fiocruz) chamado “Encontro às Quintas”, que consiste em conferências de pesquisadores de instituições nacionais e internacionais ligados ao estudo de temáticas afeitas ao campo da história e historiografia das ciências, da saúde e do ambiente. 4 – Participação em encontros acadêmicos da área de história e de história das ciências e da saúde, como o encontro bienal da Associação Nacional de História (ANPUH) e das Reuniões Anuais de Iniciação Científica da Fiocruz, tendo em mira possibilitar à aluna elaborar textos autorais baseados na pesquisa de fontes primárias e bibliográficas, bem como posteres com imagens e recursos gráficos. Desta forma espera-se contribuir para a familiarização com práticas e metodologias da pesquisa histórica que confiram autonomia suficiente para desenvolver estudo monográfico em nível de pós-graduação.
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